sábado, 31 de agosto de 2013

capítulo 39

Tá... e agora? O que que eu vou fazer da minha vida? Tô sem trabalho, acho que com as decisões idiotas que estou tomando, perdi a minha melhor amiga e ontem a Carol me intimou pra comprar uma moto e fugir com ela.

Que que eu faço?

E a banda? quando resolvo fazer algo, ou melhor, retomar algo que eu achava ser a melhor coisa da minha vida, volta toda essa merda com Carol. Puta que me lambeu! Por que que eu tinha que ama tanto esta mulher? E por que que ela tinha que ser tão gostosa?

E a Paulinha que está doente e eu estou virando as costas pra ela... o que que eu faço?

Ela quer comprar uma moto no próximo sábado e eu não sei o que fazer. Será que ela quer que eu pague a moto? Puta merda... não tinha pensado nisso, se for isso que ela quer eu tô fodido, pois vou ter que gastar toda a minha poupança pra fazer isto. Só que se eu não fizer, ela não vai querer ficar comigo. Mas também... não tem cabimento ela ficar comigo só por causa desta condição, ela não deveria se importar com estas coisas se ela me ama.

Eu tô só piorando a minha vida. só tô fazendo merda e agora não tenho nem coragem de falar com a Paulinha depois de ter deixado ela sozinha quando ela mais precisou de mim.

Que que eu faço? Compro a moto e fujo com a Carol? Esqueço tudo e monto a banda? Quem sabe eu fico com a Rose, ela é bem acessível... é... é isso que eu vou fazer, vou ligar pra Rose?

Não! Não posso fazer isso, vou aguentar e ficar com a Carol, afinal ela é o amor da minha vida... ou não.

Eu sou um merda!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

capítulo 38

Devo ter batido algum recorde, pois chego no Bar do Garça em menos de quinze minutos. Claro que chego em um estado deplorável, mas tudo bem, a Carol já tá acostumada com este meu jeito meio, digamos assim, largado... pra não mal vestido mesmo.

Bem, chego a tempo de ver a Carol descendo do carro e desfilando pela rua até onde estou. E o pior é que não estou exagerando no quesito desfile. Sério, a Carol não anda, ela desfila na frente das pessoas.

Ela vem na minha direção, eu começo a ficar nervoso - mais do que já estou - e para bem na minha frente.

- Soda - ai maldição, que voz ela tem - vamos parar com as bobagens e fugir de vez. É a tua última chance de fazer a coisa certa comigo, nem que eu tenha que te ensinar a ser o homem que eu quero.

Na boa, depois dela ter falado "Soda" eu não entendi mais nada, então acho que a coisa é eu concordar.

- Claro - eu falo tentando não me engasgar com a saliva de tão cagado que eu tô.

- Então tá, se tu concorda é o que nós vamos fazer. Me encontra na Bramoto, sábado que vem no começo da tarde que nós vamos comprar uma moto e dar no pé daqui.

Só um pouco, ela falou em fugir comigo?

domingo, 23 de junho de 2013

capítulo 37

Depois do filme, Paulinha e eu caminhamos por uma Avenida das Dores vazia. Estamos em silêncio e isto me perturba. Não sei o que falar pra ela, pior... não sei como ser uma pessoa agradável sabendo que ela está com algum problema. Tenho medo de falar até. Vai saber se não vou falar alguma coisa delicada. Poxa vida, eu nuca falei com alguém que está doente desta forma.

Penso em algum filme que tenha visto e lembro da música "Streets of Philadelphia" do Bruce Springsteen. bem que eu podia ter este dom para comentar sobre coisas tristes, saber poetizar sobre algo assim. Será que existe o termo poetizar? Será que eu inventei isto agora? Cara, do que eu tô falando, já tô pensando nas minhas merdas de novo ao invés de falar algo para a Paulinha.

Porras, ela tá tão bonita, como é que pode tá doente? Não posso acreditar nisto. Se bem que eu sou meio tapado mesmo, vai ver as pessoas doentes ficam assim e eu é que não note nada. Pouts, penseiem algo de novo e não falei nada.

Fala seu merda! Fala!

- Paulinha...

- O quê? - ela fala com um tom frio na voz.

- Eu não...

O meu celular toca, eu pego e vejo que é Carol. Que que eu faço? Que que eu faço?

- Atende duma vez Soda.

- Tá. - ainda bem que ela falou algo - Só vou atender e já te falo o que eu ia dizer. Ela nem repara na minha resposta, está olhando para o outro lado da rua e não vejo sua expressão.

- Alô.

- Oi Soda. - pourras, Carol! É a Carol! - Eu tô te ligando para marcar de falar contigo de novo, mas ninguém pode saber. Me encontra no Garça daqui a meia hora. Beijos.

Ela desliga e eu fico mudo. Olho para Paulinha.

- Paulinha...

- Vai Soda, nem me explica, apenas vai e te vira, mas não me liga durante um bom tempo.

Eu baixo a cabeça, não falo nada e disparo no meio da rua, acelerando o passo para chegar até o bar do Garça em meia hora.

Eu realmente sou um merda egoísta.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

capítulo 36

Paulinha e eu caminhamos pela rua do Acampamento vazia.

- Domingo é sempre assim né? - eu falo tentando quebrar o gelo.

- Pra mim, as vezes Santa Maria parece sempre assim, mas sei que não é isso.

- E o que é então? - digo com medo de ouvir a resposta.

- Talvez seja por eu falar algo sério pro meu melhor amigo e ele ficar uma semana sem me ligar. E pior, quando liga, fala que vai me pegar na sexta para irmos no trabalho e acaba passando só no domingo. Não... e o pior dublo é que eu acabo aceitando o convite de domingo. E nem sei o motivo pra ter aceitado isto.

- Eu sei o motivo. É que tu lá no fundo me ama. - falo tentando angariar um sorriso e aliviar a tensão no ar, já tá dando para cortar com faca a nuvem negra que tá no ar.

Ela sorri e eu agradeço aos deuses do rock por terem me dado este humor idiota que as mulheres sempre gostam em mim.

- É... eu te amo, mas não é como tu tá pensando, não fica convencido, eu te amo por saber que tu é um idiota de bom coração e que se não fosse eu, tu ia ter uma vida pior do que a merda do que tu vive. E olha que tu vive numa merda desgraçada desde que eu te conheço.

- Ei... calma lá, quem me merece um pedido de desculpas sou eu agora.

- Jura que merece! E não discute comigo que eu não te compro pipoca no cinema.  E outra, para um pouquinho de reclamar da Carol pelo menos hoje, pois a coisa podia ser bem mais estranha se tu estive em um jantar com a Rose.

- Não entendi.

- Nem tenta, pois tu te escapou de sentir cheiro de gardênias no jantar. - e ela fala isto explodindo em uma gargalhada encantadora.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

capítulo 35

Já faz uma semana que não falo com a Paulinha, desde aquela noite em que ela me falou que está com câncer, não soube o que fazer. Pensei em ligar várias vezes, mas na minha cabeça sempre ficava aquela coisa chata do tipo " o que que eu falo". Pior é que sempre sou assim, não tenho jeito para falar ou lidar direito com as pessoas e muito menos em situações que exijam uma certa atenção.

Eu sei, eu sei, parece uma coisa muito fria da minha parte eu agir desta maneira, mas fazer o quê, eu sou um merda mesmo.

É capaz de eu ligar pra ela e acabar algo do tipo "Tu tá melhor", como se ela estivesse com uma gripe e não com câncer.

Droga... eu sou covarde ao extremo e isto não pode continuar assim, pelo menos não no caso da Paulinha, ela é a minha melhor amiga, eu respeito muito ela, admiro ela pra carai e mesmo pensando umas bobagens sexuais, jamais faria  a merda de estragar o que nós temos.

É isso, eu vou falar com ela... e melhor, não vou ligar, vou pegar ela no trabalho e convidar pra ir no cinema e depois ela vir aqui pra casa pra gente comer alguma coisa e escutar música.

domingo, 31 de março de 2013

capítulo 34

Comer aquele cachorro-quente foi estranho, depois da Paulinha falar que tem câncer eu não tive como falar mais nada, qualquer coisa que eu fosse dizer sobre minhas loucuras sentimentais e minhas trapalhadas sobre a Carol seria muito pequeno perto do problema dela.

Comemos em silêncio, levantamos e fomos até a casa dela sem falar nada. Ao chegarmos parei em frente à porta e fiquei olhando para ela. Paulinha também não disse nada, me olhou bem nos olhos e nos abraçamos com força. Aquele momento pareceu durar uma eternidade, e no fundo eu queria que durasse isto. Ela me dá um beijo no rosto e entra.

Saio dali e vou direto pra casa, ao chegar pego um antigo vinil do The Cult que Paulinha me deu e coloco na faixa 3 do lado B do álbum "Love". "Revolution" começa a tocar e eu caio no choro.

quarta-feira, 27 de março de 2013

capítulo 33

Depois de todas que tomamos no Bar do Garça, Paulinha e eu resolvemos sair a pé para comer alguma coisa. O carro dela ficou no estacionamento e amanhã a gente pegava.

Caminhando pela Bozano vamos de braço dado, jogando conversa fora sobre qual repertório a banda teria agora.

- Eu não vou abrir mão de toda atitude punk que a gente tinha naquela época. - já saio defendendo as coisas sem nem ter ensaio marcado.

Ela me olha séria.

- Nem tinha imaginado isto. - mas logo já sorri - Só acho que tu não precisa mais vomitar no palco na hora de começar o show.

- Tu sempre vai me jogar isto na cara né?

- Claro! - ela diz, para logo depois explodir em uma risada.

- Tá, mas tu tem que concordar comigo que foi o melhor show que a banda fez.

Nós acabamos nos acomodando em um carro de cachorro-quente que tem na Floriano na frente do colégio Santa Maria.

- Dois cachorros calabresa no bafo, com bastante mostarda.

- Tu sabe de cor o que eu gosto Soda. Tu sempre vai ser um amor de  cavalheirismo.

Eu sento no chão ao lado dela, os dois encostados no muro do colégio. De um carro próximo toca   "So High" do Here Is Your Temple. Não sei porque, mas me sinto bem ao escutar esta música ao lado dela, falando sobre a banda, rindo, sem pensar na... Carol.

Droga... sempre Carol... minha cabeça tá mais fodida do que eu pensava, numa hora quero Paulinha, noutra hora só penso em Carol. Definitivamente eu tenho problemas.

Deixa eu pensar me outra coisa.

- Tá Paulinha, mas por que este grande interesse pelo retorno da banda e todo o papo de o quanto era bom aqueles tempos e tudo mais.

- É que talvez eu queria voltar no tempo. - percebo que ela muda o modo de falar e parece cabisbaixa - ou talvez não queira mais perder tempo com bobagens e queira aproveitar a vida da melhor maneira possível, retomando tudo o que o que eu queria ter feito e não fiz.

- Tá, e por que a pressa?

- Pra não perder tempo.

Ela séria, eu tento falar bobagens, como sempre, para ver se descontraio a coisa toda.

- E pressa pra quê? Vai morrer por acaso?

Ela não fala nada.

- Paulinha? - eu falo com medo do que ela possa falar e eu não queira ouvir.

- Eu tenho câncer Soda.

Eu não falo mais nada. Ficamos os dois olhando para frente, escutando a música que continua a tocar ao fundo.

- Dois calabresa no bafo com bastante mostarda!

O cara do cachorrão chama, mas eu não me movo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

capítulo 32

Depois te algumas cervejas e duas doses de cachaça pra cada, Paulinha e eu não paramos mais de rir. Falamos sobre música, filmes antigos e morte de astros do rock. Pelo menos com isto não estou pensando nenhuma bobagem com ela, e quando falo bobagem me refiro ao contexto sexual da coisa. 

Merda! Já tô pensando nisto de novo! Esquece isto e presta atenção no que ela tá falando com esta boca deliciosa que ela tem e que eu nunca tinha notado.

- ...e daí ela simplesmente tava toda vomitada em cima da minha cama. Fiquei puta com a guria! Era só o que me faltava, só porque a gente é colega de trabalho e tá se dando bem, eu tenho que aguentar as fiasqueiras dela? Comigo não!

Eu finjo interesse.

- Tá, e tu fez o quê?

- Nada, fui dormir na sala e deixei a bêbada lá no quarto.

- Bêbado é uma merda mesmo.

- Eu é que o diga de ti.

- Como assim? O que que eu fiz?

-Ah... tu não lembra?

Me faço de desentendido.

- Eu não lembro de nada.

- Então deixa eu te lembrar que se não fosse eu, nos anos de 1991 e 1992, tu teria se afogado em vômito umas 730 vezes, já que em cada show da banda de vocês... pior... em cada ensaio da banda, tu tomava um porre de vodka enorme e depois ficava caindo pelo chão feito uma cópia barata do Sid Vicious.

- Poxa, e eu achando que eu agradava. Eram as minhas melhores performances.

- Sei. - ela diz enquanto pede mais duas cachaças pra nós - Ficar de trago agora é performance... tô sabendo.

Eu fico rindo, admirado em como ela consegue lembrar, e o pior, gostar dos shows que fazíamos.

- Tá... - ela muda o tom de voz e parece me intimar - ...mas o que eu quero saber é: a banda volta ou não volta?

- Eu pensei sobre o que tu falou, e até que me deu vontade de reunir os guris de novo, afinal faz um tempão que a gente não se fala. Deve ser bom ver todo o pessoal depois de velho, tudo pai de família...

- Tirando tu né?! - ela fala isso quase sem controlar o riso.

- Eu sei, eu sei... tirando eu.

- Tá, e sai ou não sai esta merda de reencontro, tá te achando estrela. Credo, é mais difícil reunir vocês do que o Led Zeppelin.

- Tá, vai sair, eu só tenho que entrar em contato com os guris.

- Há! - dando um tapa na mesa - Eu sabia que iria rolar. - enquanto ela fala vejo que parece que está reunião é algo muito importante pra ela.

- Tá e daí. - eu falo com a mesma cara de besta que tive a vida inteira.

- Foi pensando que você gostaria da ideia, mas ao mesmo tempo ia ficar se cagando quarenta anos que eu já tomei a iniciativa e já entrei em contato com todos eles e todos já me confirmaram que tão a fim de voltar a banda.

Fico quieto, só admirando o sorriso dela. Esta guria é foda mesmo.

domingo, 6 de janeiro de 2013

cápitulo 31

Já é quase noite, ou seja, tá naquele horário agradável do lusco-fusco, quando a coisa toda se perde entre luz e sombra. 

Resolvi ligar para a Paulinha para ela me encontrar no bar do Garça. Cheguei mais cedo para dar tempo do que pensar, pois depois do papo de ontem minha cabeça ficou toda confusa. É muita coisa pra mim, a Carol voltando a falar comigo, eu misturando a amizade da Paulinha com uma algo a mais e ainda por cima, esta vontade saudosista de reencontrar o pessoal da banda e consequentemente de voltar com a banda.

Voltar com banda... só de pensar nisto eu já fico rindo... de nervoso, como será este reencontro depois de 20 anos?

A Paulinha entra no bar e meu mundo se ilumina. Puta merda, já tô pensando idiotice de novo, é melhor esquecer estás ideias de uma vez, ficar pirado com a Carol já é o suficiente pra mim.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

capítulo 30

"Scoundrel Days" do A-ha toca no som ("... enquanto nossas vidas se fazem, acreditamos que por entre mentiras e o ódio, o amor corre livre...") e fico pensando na conversa que tive com Paulinha.

Voltar com a banda? Parece meio estúpido da minha parte pensar nisto agora, nesta etapa da minha vida, mas ao mesmo tempo, se eu for ver bem, tudo que ando fazendo na minha vida é um sequência de imbecilidades.

Mas será que algum dos guris ainda teria vontade de tocar? Já são mais de vinte anos desde nossa última apresentação em um show - a fatídica apresentação no Bar in Bar ali da Bozano - e é deste período, mais ou menos, a última vez que nos vimos.

Bem... estar enferrujado não seria o problema principal pois naquela época já não tocávamos nada mesmo, então neste quesito talvez o tempo até tenha melhorado algo... vai saber.

Deixa ver se eu lembro, mas acredito que a formação da banda, depois de 4 formações diferentes em menos de seis meses, naquele último show em Abril de 1992 era: Pia Envolvente na bateria, Jesus Patente no baixo, Geleia na guitarra e eu na voz (na verdade eram gritos e sussurros). O repertório era basicamente 7 músicas nossas (letras minhas e do Jesus Patente e música de toda banda) que incluíam coisas bizarras como "Spring", "White Walls" e "I Want To Lick Your White Skin" e mais 7 covers que eram  "God Save The Queen" dos Sex Pistols, "Boys Don't Cry" do The Cure, "Surfista Calhorda" dos Replicantes, "Rock'N'Roll" do Led Zeppelin, "Ziggy Stardust" do Bowie, "London Calling" do The Clash e uma versão hard-core de "Souvenir" do OMD, ou seja, éramos ecléticos com um ótimo gosto.

Sabe, pensando bem, não éramos ruins, quer dizer, éramos sim, mas afinal de contas isso não importa, rock sempre foi isso... incomodar, barulho, distorção, sexo e rebeldia infanto-juvenil.

Rebeldia juvenil... é... com a minha idade só sendo um imbecil para falar assim nisto. Mas como eu disse, sempre fiz coisas imbecis mesmo, talvez esteja na hora de eu fazer mais merda mesmo.

terça-feira, 20 de março de 2012

capítulo 29

Depois de tomar todas e mais algumas com a Paulinha no Cristal, saímos e resolvemos andar um pouco. Ela caminha um passo na minha frente e eu reparo nos cabelos presos dela que deixam cair alguns fios sobre a nuca.

- Que foi Soda?

Ela pergunta e eu volto ao frio da realidade.

- Nada não, tava longe, pensando bobagem.

- Sei... - ela fala com um leve sorriso na boca - tu tá sempre longe, sempre viajando, sempre sonhando... cara, tá na hora de fazer alguma coisa legal pra ti. O que que tu tem vontade de fazer?

Eu penso "te comer agora, neste momento", mas é claro que isso não sai de dentro da minha cabeça.

- Eu? Nada... não sei... ah sei lá, não me vem nada em mente.

Passamos por uns moleques que estão escutando música na rua, música ruim diga-se de passagem.

- Olha só estes pias escutando música ruim. - ela fala apontando para os guris - tá cheio de pia escutando uns lixos de música ou tocando uns lixos de música, por que tu não faz uma coisa útil e volta com a banda? Desde aquele show no antigo Bar In Bar que tu vomitou no palco tu não mais tocou.

- Acho que o fato de eu ter vomitado no palco já é um bom indicativo que a coisa parou na hora certa.

- Que nada! - ela fala com aquela empolgação que eu admiro na Paulinha - Vocês eram a banda mais legal de Santa Maria.

- Mas ninguém gostava da gente!

- Por isso que vocês eram legais, vocês só tocavam o que queriam e tavam se lixando para o público.

Enquanto ela fala lembro das confusões daquela época e como tudo parecia mais simples. Como os amores eram mais divertidos.

Ela continua falando:

- Ia ser bom pra ti se a banda voltasse.

- Tá... - eu falo sem muita convicção, falo mais por ter me apaixonado pelas palavras e pela alegria dela em falar da banda - pode ser que tu esteja certa.

- É claro que eu tenho! - ela sorri como uma menina, uma groupie que está trabalhando no retorno da sua banda do coração - e o mais legal é que agora eu for ser a responsável pela banda.

- Xi... o que tu tá inventando?

- Nada - ela diz sorrindo - vamos unir duas coisas na volta da banda: tu exorciza a Carol da tua vida e eu viro empresária de banda de rock.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

capítulo 28

Paulinha está falando algo sobre a vez que a Angela Bowie pegou o David Bowie e o Mick Jagger na cama, só que não consigo prestar atenção no que ela diz, minha cabeça tá mais confusa do que de costume com a ideia de amar a Carol e sentir uma atração pela Paulinha.

- Soda? - ela diz e eu caio na real - Tá me escutando?

- Claro que tô!

- Até imagino - ela me olha direto nos olhos e eu fico gelado - só pode estar pensando na Carol.

- Pior que não. - falo sem muita convicção.

- Espero, pois tá na hora de tu tirar aquela guria da cabeça.

- Tá mas qual é o motivo de tu querer tanto isso?

- Não gosto de ver um amigo meu sofrendo assim como tu tá.

"Amigo", é bom eu notar e ouvir muito bem isso... ela só me quer como amigo.

- É, chega de pensar em Carol - tento pensar com clareza - o negócio é fuleragem e rock'n'roll.

- É isso aí meu caro - ela levanta o copo para um brinde - um brinde ao sexo violento e ao rock barulhento.

Brindamos e tomamos um grande gole de cerveja. Paulinha larga o copo e abre um largo e lindo sorriso e eu não consigo pensar em outra coisa: "sexo violento". Minha mente se forra de ideias libidinosas de Paulinha nua, de quatro, se mostrando pra mim.

Merda, eu sou um doente mental!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

capítulo 27

Paulinha chega meia hora depois e eu já estava na terceira cerveja.

Ela entra, me vê e senta comigo.

- Que que houve Soda?

- Nada - eu digo sem parecer muito convincente.

Ela sorri, faz um sinal para o garçom e volta a me olhar.

- Para com isso que tu não me engana de jeito nenhum, pra tu tá com essa cara e já estar bebendo é porque alguma coisa houve e se bem te conheço só pode ser alguma coisa com mulher, o que no teu caso significa... Carol!

Eu não sei porque eu não amo esta mulher, ela é bonita, rica, tem bom gosto musical, tem estilo para se vestir e me trata como nenhuma outra jamais me tratou. Por que meu Deus que eu tenho que gostar daquela vaca da Carol?

O garçom chega, Paulinha pede uma caipirinha e de forma magistral como só uma musa consegue fazer, arruma os lindos cabelos em um coque que deixam alguns poucos fios caídos naquele pescoço lindo. Só um pouco... por que eu estou falando desta maneira? Era só o que me faltava, além de amar a Carol, agora começar a confundir tudo com a Paulinha. 

Tô fudido!

domingo, 18 de dezembro de 2011

capítulo 26

A Carol está olhando para o outro lado, para as pessoas que passam pela rua e eu não sei o que dizer.

- Tu não vai fala nada? - ela pergunta olhando para rua.

- E o que que eu posso te dizer?

- Nem sei se eu quero que tu diga alguma coisa, na verdade...

Ela olha para mim mas não fala nada, fica me fitando e eu fico nervoso com isso, imagino todas as coisas que estão passando pela cabeça dela e não acredito que sejam coisas boas ao meu respeito.

- Na verdade o quê? - eu falo com medo de ouvir a resposta.

- Nada não é melhor eu ir embora.

Ela levanta sem me olhar, vira as costas e sai da mesma forma que chegou e eu fico ali parado, pensando no que aconteceu e se vale a pena eu ir atrás dela. Olho um casal que entra no Cristal, sorridente, mãos dadas, falando alto e demonstrando em cada gesto o amor que eles sentem. Eu fico com vontade de chorar, de levantar e ir atrás da Carol nem que seja para ela me xingar e falar algo pra mim, mas não faço um gesto sequer. 

Fico quieto, respiro e pego o celular. Chama, mas ela demora a atender.

- Paulinha... quer tomar umas cervejas comigo aqui no Cristal?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

capítulo 25

Já são 18h em ponto e eu tô sentado aqui no Café Cristal tomando uma Coca Zero muito comportado. Nos fones toca "Teenage Kicks" do The Undertones e eu tento parecer tranquilo enquanto espero a Carol. Como que para me deixar mais nervoso, assim que eu penso no nome dela a dita cuja entra no Café.
Ela para um segundo na porta, me procura com o olhar e quando me vê abre um sorriso, o mesmo que me conquistou muito tempo atrás. Vem em minha direção, ela veste uma regata preta colada no corpo, um short jeans e esta de chinelinho de dedo, ou seja, já fiquei desconcertado apenas com a visão deste corpo feminino se aproximando de mim, o que dizer de eu falar com ela de novo.

- Oi. - ela diz e fica parada na minha frente.

Eu levanto e dou um beijo no rosto dela. WTF! Por que diabos eu fiz isso?

- Oi - eu falo querendo bater a cabeça na parede - quer sentar?
- Claro.

Eu puxo a cadeira pra ela e depois dela sentar me acomodo.

- Tu queria falar comigo?
- Como assim? - eu falo já com medo da resposta - Não era tu que queria me dizer algo?
- O que eu tinha pra dizer eu já disse na festa, tu é que me ligou depois.

Eu não acredito que ela me chamou até aqui para ficar neste papo besta.

- Tá mas lá na festa tu falou que tava errada não é? Eu nem tinha bebido então eu sei o que eu escutei.
- Eu lembro o que eu falei - ela baixa a cabeça e fica olhando para as mãos - e sei o que significa, mas não sei o que significa tudo o que está acontecendo.
- E o que tá acontecendo afinal? Tu bem que podia me explicar, pois eu não tô entendo porra nenhuma!
- Eu gosto de ti Soda.
- Se gosta por que terminou então?
- Não é tão fácil explicar.
- Pode não ser fácil, mas também não é fácil pra mim saber que além de me deixar tu fica com um cara escroto que tu jamais gostaria antes.
- Eu sei disso - ela continua com a cabeça baixa e isso me deixa cada vez mais nervoso - mas é que eu não sabia mais o que fazer, eu precisava de algo mais seguro pra mim.
- Seguro? Como assim seguro?
- Futuro sabe? Financeiramente, profissionalmente... uma vida mais tranquila, mais séria e não essas loucuras que tu passa querendo fazer toda semana.
- Loucura? Que loucuras que eu faço? - eu olho para os lados, coço a cabeça - Eu sou o cara mais comum que eu conheço, eu sou normal, um publicitário babaca como tantos outros!
- É verdade... como tantos outros, só que nunca ser nada mais do que isso, tu continua sendo explorado pelos outros e nunca tomou a iniciativa de ser um chefe, o dono de algo, continua se danando de tanto trabalhar para os outros, fazendo um trabalho muito legal, mas quem fica com o dinheiro, com a fama são os outros. Tu sempre vai ser um sonhador Soda... um peão pros outros. E ainda por cima...
- O que foi? - eu pergunto com medo do que pode vir na resposta.

Ela me olha bem nos olhos.

- Quando tu vai para de sonhar que tu um dia vai ser um rock star?

Eu sabia, o papo tinha que terminar assim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

capítulo 24

São sete da manhã e eu ainda não dormi, tô sentado aqui  no sofá da sala desde que cheguei em casa de madrugada e acho que já furei o primeiro CD do Radiohead de tanto que eu toquei. Só que não prego o olho por causa da ansiedade que tô sentindo sabendo que eu vou conversar com a Carol hoje de tarde e tô me borrando todo só de imaginar o que ela vai me dizer, e o que é pior, não ter a mínima ideia do que ela vai me falar.
Sabe, nada é pior do que não saber o que nos espera. Tá... existem coisas piores como pegar o copo de leite gelado e não ter Nescau em casa, ficar com uma pusta vontade de ir no banheiro bem quando tu tá dentro do ônibus lotado e tomar cinco injeções antirábica por culpa de um cusco de rua que te deu uma mordida na batata da perna, mas fora isso... ficar esperando é algo muito tenso pra mim.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

capítulo 23

Então ela estava esperando eu ligar. E agora... o que eu falo? Toda a conversa sobre o quanto ela me faz falta e o quanto eu quero sentir o cheiro da sua pele novamente passam pela minha cabeça, mas não abor a boca para falar nada.
- Soda? - ela fala com aquela voz que me deixa besta - tu não vai falar nada?
- Eu... eu... gostou da festa? - festa? que merda é essa? com tudo que eu tenho para falar e perguntar eu pergunto sobre a festa! Eu sou um merda!
- Gostei, mas não quis ficar muito, não tô com pique de festa, tenho muita coisa para pensar.
Coisas para pensar? O que ela quer dizer com isto? Será que ela tá pensando em mim? É isso que ela quis dizer?
- E tu tá pensando... em algo... específico? - droga, nem consigo falar como homem, tô com a perna tremendo, eu não devia ter ligado.
- Tô. E tem relação contigo. - ela fala isso da forma mais natural possível.
- Eu? Ah, tu tá de brincadeira. - tento parecer um cara tranquilo, mas acho que passo por idiota mesmo. - Eu? Por que tu ia tá pensando em mim?
- Sim, até eu fiquei me perguntando o motivo disso. - ela sorri, droga, tá rindo da minha cara, eu sou um idiota mesmo.
- Tá e isso significa o quê?
- Olha, agora da tarde para falar pelo telefone, vamos nos encontrar amanhã de tarde.
- Já é de madrugada, tu quer dizer amanhã, amanhã, ou amanhã, hoje de tarde?
Escuto a risada dela e imagino ela deitada no sofá da sala, só de camiseta e calcinha.
- Só tu né Soda! Sempre literalista, eu quis dizer hoje de tarde então.
- Ah... tá, beleza! Onde?
- Vamos nos encontrar ali no Café Cristal, ali na Pasqualine?
- Pode ser, faz tempo que não vou ali.
- Então tá, amanhã às 18h, pode ser?
- Pode sim. - eu acho que eu tô gaguejando - Combinado, amanhã às 18h no Café Cristal.
- Então té mais, beijo.
- Beijo.
Ela desliga e eu fico parado ali na rua. 
Ao longe alguém com insônia escuta "Everything Flows" do Teenage Fanclub e eu encho os olhos d'água. Merda, que medo... o que ela conversar comigo? Não vou aguentar dois foras da mesma mulher. Carol... o que tu quer comigo?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

capítulo 22

Penso no que o elefantinho me fala e resolvo ligar para a Carol. Sei que não é a melhor coisa do mundo ligar para a mulher que a gente ama estando bêbado, mas creio que não tenho muito mais a perder.
Levanto, começo a caminhar, pego o celular e ligo para ela... começa a chamar... ao longe escuto "Pictures of You" do The Cure saindo de alguma janela.
Ela atende:
- Oi.
- Oi. - digo eu, e me arrependo de ter ligado pois vejo que vou ficar mudo e sem saber o que dizer.
- Eu estava esperando tu me ligar.
Ela fala isso e eu penso que Deus existe e que ele se comunica comigo através de um gimmick dos anos 70, isso, ou a vodka que eu tomei me deu o maior barato.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

capítulo 21

Eu não acredito que o elefantinho da Shell tá falando comigo, realmente porre de vodka dá barato.
- É claro que eu ligaria para ela - e ele não para de falar - não perderia uma oportunidade dessas!
- Mas tu conhece a Carol?
- Não meu rapaz! - "meu rapaz"? quem é que fala assim hoje em dia - é só modo de falar. Eu só quero dizer que ligaria para a mulher que eu amo se ouvisse ela falar o que falou para você.
Já sei, a voz do elefantinho é a do Sérgio Chapelin!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

capítulo 20

Caminho sozinho pelas ruas na volta para casa. Carrego junto uma garrafa de vodka que peguei na festa. O celular no bolso me convida para uma ligação para a Carol, mas ao invés disso eu sento no meio fio e tomo mais um gole.
Resolvo beber para esquecer, ou para entender, ou até morrer... não sei mais o que pensar, só lembro de Carol na festa.
- Você devia ligar pra ela.
Levo um susto, olho para trás para ver quem falou e não acredito quando dou de cara com o Elefantinho da Shell e ainda por cima com o mesmo uniforme amarelo dos antigos comerciais de TV.
- Como? - Eu falo sem acreditar que estou respondendo para um desenho animado.
- Para a Carol! Você devia ligar e falar com ela. - A voz dele não me é estranha.
- Tem certeza? - não acredito que eu falei de novo com ele.
- Claro que tenho. - Essa voz, eu conheço, só não lembro bem de onde.
- E como eu você pode ter certeza?
- É o que eu faria. - ele senta ao meu lado.
- Você ligaria para a Carol?
Ele pega a garrafa de vodka da minha mão e toma um longo gole e limpa a boca com a manga do seu macacão amarelinho.
- Claro que sim