domingo, 18 de dezembro de 2011

capítulo 26

A Carol está olhando para o outro lado, para as pessoas que passam pela rua e eu não sei o que dizer.

- Tu não vai fala nada? - ela pergunta olhando para rua.

- E o que que eu posso te dizer?

- Nem sei se eu quero que tu diga alguma coisa, na verdade...

Ela olha para mim mas não fala nada, fica me fitando e eu fico nervoso com isso, imagino todas as coisas que estão passando pela cabeça dela e não acredito que sejam coisas boas ao meu respeito.

- Na verdade o quê? - eu falo com medo de ouvir a resposta.

- Nada não é melhor eu ir embora.

Ela levanta sem me olhar, vira as costas e sai da mesma forma que chegou e eu fico ali parado, pensando no que aconteceu e se vale a pena eu ir atrás dela. Olho um casal que entra no Cristal, sorridente, mãos dadas, falando alto e demonstrando em cada gesto o amor que eles sentem. Eu fico com vontade de chorar, de levantar e ir atrás da Carol nem que seja para ela me xingar e falar algo pra mim, mas não faço um gesto sequer. 

Fico quieto, respiro e pego o celular. Chama, mas ela demora a atender.

- Paulinha... quer tomar umas cervejas comigo aqui no Cristal?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

capítulo 25

Já são 18h em ponto e eu tô sentado aqui no Café Cristal tomando uma Coca Zero muito comportado. Nos fones toca "Teenage Kicks" do The Undertones e eu tento parecer tranquilo enquanto espero a Carol. Como que para me deixar mais nervoso, assim que eu penso no nome dela a dita cuja entra no Café.
Ela para um segundo na porta, me procura com o olhar e quando me vê abre um sorriso, o mesmo que me conquistou muito tempo atrás. Vem em minha direção, ela veste uma regata preta colada no corpo, um short jeans e esta de chinelinho de dedo, ou seja, já fiquei desconcertado apenas com a visão deste corpo feminino se aproximando de mim, o que dizer de eu falar com ela de novo.

- Oi. - ela diz e fica parada na minha frente.

Eu levanto e dou um beijo no rosto dela. WTF! Por que diabos eu fiz isso?

- Oi - eu falo querendo bater a cabeça na parede - quer sentar?
- Claro.

Eu puxo a cadeira pra ela e depois dela sentar me acomodo.

- Tu queria falar comigo?
- Como assim? - eu falo já com medo da resposta - Não era tu que queria me dizer algo?
- O que eu tinha pra dizer eu já disse na festa, tu é que me ligou depois.

Eu não acredito que ela me chamou até aqui para ficar neste papo besta.

- Tá mas lá na festa tu falou que tava errada não é? Eu nem tinha bebido então eu sei o que eu escutei.
- Eu lembro o que eu falei - ela baixa a cabeça e fica olhando para as mãos - e sei o que significa, mas não sei o que significa tudo o que está acontecendo.
- E o que tá acontecendo afinal? Tu bem que podia me explicar, pois eu não tô entendo porra nenhuma!
- Eu gosto de ti Soda.
- Se gosta por que terminou então?
- Não é tão fácil explicar.
- Pode não ser fácil, mas também não é fácil pra mim saber que além de me deixar tu fica com um cara escroto que tu jamais gostaria antes.
- Eu sei disso - ela continua com a cabeça baixa e isso me deixa cada vez mais nervoso - mas é que eu não sabia mais o que fazer, eu precisava de algo mais seguro pra mim.
- Seguro? Como assim seguro?
- Futuro sabe? Financeiramente, profissionalmente... uma vida mais tranquila, mais séria e não essas loucuras que tu passa querendo fazer toda semana.
- Loucura? Que loucuras que eu faço? - eu olho para os lados, coço a cabeça - Eu sou o cara mais comum que eu conheço, eu sou normal, um publicitário babaca como tantos outros!
- É verdade... como tantos outros, só que nunca ser nada mais do que isso, tu continua sendo explorado pelos outros e nunca tomou a iniciativa de ser um chefe, o dono de algo, continua se danando de tanto trabalhar para os outros, fazendo um trabalho muito legal, mas quem fica com o dinheiro, com a fama são os outros. Tu sempre vai ser um sonhador Soda... um peão pros outros. E ainda por cima...
- O que foi? - eu pergunto com medo do que pode vir na resposta.

Ela me olha bem nos olhos.

- Quando tu vai para de sonhar que tu um dia vai ser um rock star?

Eu sabia, o papo tinha que terminar assim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

capítulo 24

São sete da manhã e eu ainda não dormi, tô sentado aqui  no sofá da sala desde que cheguei em casa de madrugada e acho que já furei o primeiro CD do Radiohead de tanto que eu toquei. Só que não prego o olho por causa da ansiedade que tô sentindo sabendo que eu vou conversar com a Carol hoje de tarde e tô me borrando todo só de imaginar o que ela vai me dizer, e o que é pior, não ter a mínima ideia do que ela vai me falar.
Sabe, nada é pior do que não saber o que nos espera. Tá... existem coisas piores como pegar o copo de leite gelado e não ter Nescau em casa, ficar com uma pusta vontade de ir no banheiro bem quando tu tá dentro do ônibus lotado e tomar cinco injeções antirábica por culpa de um cusco de rua que te deu uma mordida na batata da perna, mas fora isso... ficar esperando é algo muito tenso pra mim.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

capítulo 23

Então ela estava esperando eu ligar. E agora... o que eu falo? Toda a conversa sobre o quanto ela me faz falta e o quanto eu quero sentir o cheiro da sua pele novamente passam pela minha cabeça, mas não abor a boca para falar nada.
- Soda? - ela fala com aquela voz que me deixa besta - tu não vai falar nada?
- Eu... eu... gostou da festa? - festa? que merda é essa? com tudo que eu tenho para falar e perguntar eu pergunto sobre a festa! Eu sou um merda!
- Gostei, mas não quis ficar muito, não tô com pique de festa, tenho muita coisa para pensar.
Coisas para pensar? O que ela quer dizer com isto? Será que ela tá pensando em mim? É isso que ela quis dizer?
- E tu tá pensando... em algo... específico? - droga, nem consigo falar como homem, tô com a perna tremendo, eu não devia ter ligado.
- Tô. E tem relação contigo. - ela fala isso da forma mais natural possível.
- Eu? Ah, tu tá de brincadeira. - tento parecer um cara tranquilo, mas acho que passo por idiota mesmo. - Eu? Por que tu ia tá pensando em mim?
- Sim, até eu fiquei me perguntando o motivo disso. - ela sorri, droga, tá rindo da minha cara, eu sou um idiota mesmo.
- Tá e isso significa o quê?
- Olha, agora da tarde para falar pelo telefone, vamos nos encontrar amanhã de tarde.
- Já é de madrugada, tu quer dizer amanhã, amanhã, ou amanhã, hoje de tarde?
Escuto a risada dela e imagino ela deitada no sofá da sala, só de camiseta e calcinha.
- Só tu né Soda! Sempre literalista, eu quis dizer hoje de tarde então.
- Ah... tá, beleza! Onde?
- Vamos nos encontrar ali no Café Cristal, ali na Pasqualine?
- Pode ser, faz tempo que não vou ali.
- Então tá, amanhã às 18h, pode ser?
- Pode sim. - eu acho que eu tô gaguejando - Combinado, amanhã às 18h no Café Cristal.
- Então té mais, beijo.
- Beijo.
Ela desliga e eu fico parado ali na rua. 
Ao longe alguém com insônia escuta "Everything Flows" do Teenage Fanclub e eu encho os olhos d'água. Merda, que medo... o que ela conversar comigo? Não vou aguentar dois foras da mesma mulher. Carol... o que tu quer comigo?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

capítulo 22

Penso no que o elefantinho me fala e resolvo ligar para a Carol. Sei que não é a melhor coisa do mundo ligar para a mulher que a gente ama estando bêbado, mas creio que não tenho muito mais a perder.
Levanto, começo a caminhar, pego o celular e ligo para ela... começa a chamar... ao longe escuto "Pictures of You" do The Cure saindo de alguma janela.
Ela atende:
- Oi.
- Oi. - digo eu, e me arrependo de ter ligado pois vejo que vou ficar mudo e sem saber o que dizer.
- Eu estava esperando tu me ligar.
Ela fala isso e eu penso que Deus existe e que ele se comunica comigo através de um gimmick dos anos 70, isso, ou a vodka que eu tomei me deu o maior barato.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

capítulo 21

Eu não acredito que o elefantinho da Shell tá falando comigo, realmente porre de vodka dá barato.
- É claro que eu ligaria para ela - e ele não para de falar - não perderia uma oportunidade dessas!
- Mas tu conhece a Carol?
- Não meu rapaz! - "meu rapaz"? quem é que fala assim hoje em dia - é só modo de falar. Eu só quero dizer que ligaria para a mulher que eu amo se ouvisse ela falar o que falou para você.
Já sei, a voz do elefantinho é a do Sérgio Chapelin!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

capítulo 20

Caminho sozinho pelas ruas na volta para casa. Carrego junto uma garrafa de vodka que peguei na festa. O celular no bolso me convida para uma ligação para a Carol, mas ao invés disso eu sento no meio fio e tomo mais um gole.
Resolvo beber para esquecer, ou para entender, ou até morrer... não sei mais o que pensar, só lembro de Carol na festa.
- Você devia ligar pra ela.
Levo um susto, olho para trás para ver quem falou e não acredito quando dou de cara com o Elefantinho da Shell e ainda por cima com o mesmo uniforme amarelo dos antigos comerciais de TV.
- Como? - Eu falo sem acreditar que estou respondendo para um desenho animado.
- Para a Carol! Você devia ligar e falar com ela. - A voz dele não me é estranha.
- Tem certeza? - não acredito que eu falei de novo com ele.
- Claro que tenho. - Essa voz, eu conheço, só não lembro bem de onde.
- E como eu você pode ter certeza?
- É o que eu faria. - ele senta ao meu lado.
- Você ligaria para a Carol?
Ele pega a garrafa de vodka da minha mão e toma um longo gole e limpa a boca com a manga do seu macacão amarelinho.
- Claro que sim

domingo, 27 de março de 2011

capítulo 19

"Dark is The Night for All" do A-ha toca na festa.
Duas gurias vestindo apenas calças de couro e nada mais se beijam e se devoram sobre a mesa de centro da sala.
Eu olho a cena mas não penso e nem sinto nada pois minha mente está longe daqui.
Paulinha fala alguma coisa mas apesar de ver seus lábios se moverem não escuto nada.
"Talvez eu tenha me enganado"... essas foram as palavras da Carol, sussurradas em meu ouvido. E não é isso que me chama mais atenção, o que não consigo esquecer é o olhar dela ao me falar isso. Não consigo para de pensar em seus olhos enquanto ela partia depois de me falar essas palavras.
A festa não significa mais nada pra mim, eu só penso no que isso pode significar,
O dj toca "Stay On These Roads" do A-ha e acho que ele está de sacanagem comigo.

capítulo 18

Chegamos na dita festa e já percebo que a casa do Kibe está transformada em uma verdadeira FUN HOUSE.
Paulinha e eu vamos de ambiente em ambiente caminhando entre cyberpunks de cabelos descoloridos, clubers vestidos com roupas ultra-coloridas de ciclistas, casais gays que se beijam com extrema paixão visceral e rockers tecnológicos viciados em morfina.
Ao entrar na sala para pegar uma cerveja na piscina infantil cheia de gelo que serve de cooler de bebidas dou de cara com Carol. Ela fica me olhando fixamente e me desconcentro.
Pego uma cerveja, abro e entrego para Paulinha, pego uma pra mim, abro e tomo um gole percebendo que Carol não tira os olhos de mim. Ela vem em minha direção. Fico nervoso e não sei o que fazer. Ela se aproxima de meu ouvido e sussurra com aquela mesma voz rouca que eu ainda amo.
- Talvez eu tenha me enganado.
Ela fala séria e se afasta de cabeça baixa enquanto toma um gole de vodka.
Eu fico imóvel.
Os primeiros acordes de "Never Surrender" do Corey Hart começam a tocar na festa e parece que o dj escolheu aquela música especialmente para mim.

domingo, 13 de março de 2011

capítulo 17

Paulinha chega na hora marcada, pontualmente, e tomamos o rumo da festa.
Ela liga o som do carro.
- Quer escutar alguma coisa?
- Qualquer coisa.
- Então, como é noite de festa, nada melhor do que começar com o primeiro do Van Halen.
Ela coloca a música e os primeiros acordes de "Runnin' With The Devil" estouram dentro do carro. Eu escuto a música e vejo que está noite promete, quem sabe sirva como um exorcismo e eu consiga tirar a puta da Carol da minha cabeça.
-Olha, eu só tenho que te dizer uma coisa. - Paulinha fala bem devagar, como se estivesse escolhendo as palavras para me dizer algo - Eu fiquei sabendo quando tava vindo te pegar.
- Fala mulher!
- A Carol vai tá na festa.
Puta merda... lá se foi meu mundo e minha confiança. É hoje a noite da minha lenta morte.